Pot-pourri

Hoje o dia começou brutal, com estrondo de vozes nervosas querendo me engolir sem razão. Penso “você abusou, tirou partido de mim, abusou, mas não faz mal”. Continuo passo a passo o meu dia corrido, sem determinação exata de como vou me acabar hoje. Sinto meu coração como um tambor tão forte quanto o de Parintins é um “tique tique tique tique ta”, talvez seja a hora de começar a sair do sedentarismo 10 minutos de caminhada me deixam desanimada, “mas que culpa tenho eu?…será que tudo o que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda?”. Paro, admirando o passeio público, por um instante para tomar fôlego. Sentada em um banco, ao lado de um jardim espero os batimentos se aquietarem e, enquanto reparo nos transeuntes distraídos, aproveito e mergulho para bem dentro de mim. Introspecções me atingem a boca do estômago e sobem até a minha garganta, que estranha o movimento. Ah, pensamentos inconsequentes de bem dentro de mim acalmem o ser que os alimenta. Quem sabe o meu mal seja a falta de viver “diversão é a solução sim, diversão é a solução pra mim”, quem sabe meu mal é o famoso estresse, preciso de férias, um lugar longe, acho que “eu vou para maracangaia, eu vou!”.  Como se isso adiantasse, a verdade íntima de mim grita. As férias entorpeceriam minha visão, mas, logo logo eu estaria comigo sozinha e aí danou-se! “Quem saberá a cura do meu coração senão eu?”. Acendo um cigarro pensando que deveria parar com isso, “por favor, pare agora!”, não, por hoje ainda sou fumante. Terminei o cigarro, o fôlego semirrecuperado, continuo a subida ao trabalho. As paredes sujas do SCS refletem o meu ser interior, sem vida, sem luz, sem esperança, cansado. Droga, não deveria ter parado para pensar em mim! O cansaço sentido, em plena segunda-feira, o sem ânimo. Ainda não sei qual é meu problema, a minha vida toda é um problema, “a minha vida eu preciso mudar… pra escapar da rotina”. Tosse, tosse, tosse, atinge meu peito. Acho que era melhor parar de fumar. Já perto do primeiro bloco, depois do BRB, descobri tudo, na visão de um passarinho que “cantou que vem aí bom tempo”. O sentido de tudo em minha frente alçando voo, não de T-U-D-O, mas o tudo de mim. Vivo cansada de esperar, assim como Pedro venho esperado…“esperando, esperando, esperando o sol, esperando o trem[…]”. Meu trem chegou, mas a espera continua, a espera de esperança, a espera de expectativa, a espera de ser diferente, eu e o mundo. Eu não sabia, “mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo, maior do que o mar, mas pra que sonhar se dá o desespero de esperar demais”? Espero por 20 anos o melhor de mim e ele ainda não apareceu. Quantos anos mais? Dou bom dia ao Zé, hall ainda vazio, clico no botão do elevador e só me cabe esperar “espere por mim…espere que eu chego já”. “Entro no elevador e aperto o 12” que é o meu andar, procuro um “drops de anis” na bolsa, ajeito minha “cabeleira do Zezé” ao espelho e respiro fundo. Do térreo ao andar de destino determino (como tantas e tantas vezes fiz) a mim mesma a mudança, nunca é tarde, sempre é tempo “e eu vou. por que não?”. Vou buscar o meu eu, vou achar a alegria trancafiada, vou ao resgate de mim…mas só amanhã, afinal não tem problema porque “amanhã vai ser outro dia”.

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