Outra

Toda vez que eu me encaro sozinha, comigo mesma, bate um desespero de recomeçar a esmiuçar meu ser. Por onde devo começar de novo? A ladainha começa sempre igual e sem medida, um fluxo constante de verdades, dúvidas, certezas e incertezas. Não há a quem recorrer, somos só eu. Somos todas as eus, em roda olhando uma para outra. A inconstância de uma é neutralizada pela estabilidade da outra, enquanto uma se porta como que em meditação, outra se levanta e não para de dar voltas no quarto. Qual delas sou eu? Há uma que parece não ter mais do que 10 anos, a brincar com uma boneca de pano, conversa com ela, rodopia com ela, não repara nas outras em volta…é somente ela e sua bonequinha. A outra falando sozinha, parece brigar, ela grita mudamente com ninguém. A quem será que ela vê? Porque a briga começou? Talvez ela só queira extravasar outra eu, dentro dela. Uma delas dança, canta, atua, pinta e se movimenta com tanta graça que é difícil acreditar que ela sou eu. Tem uma mexendo um bolo, outra lendo alguma coisa com o lápis pousado na boca, tem outra lá atrás com fones de ouvido e sacudindo a cabeça, quase consigo saber o que ela escuta. Entre tantas delas, entre tantas minhas, entre tantas de nós, há uma ao canto, sentada, encolhida, com o olhar parado em nada, abraçando as pernas, com a respiração tão branda que quase não se escuta. Sem explicação ou porquê ela movimenta a mão, com a palma espalmada para ela. Olha delicadamente e com afinco as linhas que desenham sua mão direita, para pacientemente o olhar. A mão esquerda, às vezes, alisa as linhas da direita, e ela balbucia qualquer coisa ininteligível a mim, àquela distância. Com o olhar fixo na cena dela, na cena nossa, tento calcular um jeito de me aproximar de mim sem que ela se assuste. A minha respiração aumenta a frequência, e agora o que fazer? Ponho-me como uma gato, de quatro, e “caminho” sorrateiramente pelas costas dela. A blusa azul, acetinada, balança levemente com uma brisa que não sei de onde vem. Ainda estou seguindo a sua direção, mas para quê? O que fazer quando eu chegar mais perto dela? O que falar? Buscar o autoconhecimento em si não é tarefa fácil. Será mesmo que quero descobrir? A cerca de dois braços de distância, a mão esquerda dela se ergue com o indicador apontando para cima, todos os demais dedos recolhidos, somente o indicador aponta pra cima. Parei o movimento, quase sem respirar, como ela sabia que eu estava ali? Sacudiu o indicador, para um lado e para o outro, o dedo dizia que não. Olhei em volta e todas as eus me olhavam curiosas como se fosse uma surpresa me achar ali. Todas elas se colocaram em círculo, de pé, exceto a eu de costas. Eu, sem saber mesmo o que fazer, permanecia parada, de quatro, com o pescoço virado para as outras, somente os olhos se mexiam, olhando seus rostos, suas formas, o que será que elas…Antes que o pensamento terminasse vi todas elas correndo em minha direção. O que fazer? Não sabia como parar! Cai sentada no chão, com as costas na parede atrás de mim. Elas vinham correndo, pegando impulso para pular…em mim? Encolhi meu corpo, cabeça entre os joelhos, abraçando as pernas, mãos protegendo a cabeça, esperando sentir o baque, um grito fino escapou a boca e…nada. Nada. Nada. Ainda me mantive imóvel por alguns segundos, Levantei a cabeça lentamente, não restava mais nada além de mim e o quarto. O meu bem bate a porta – Posso entrar? Claro! Pode sim – Com o olhar ainda aterrorizado reparo que o quarto está revirado, como se uma ventania tivesse entrado pela janela e tomado conta de todo espaço. Pouso o olhar no meu bem, que me encara com uma cara assustada. – Está tudo bem? O que aconteceu aqui? Você estava lutando com alguém? – E ao dizer isso ele faz um meio sorriso que eu adoro – É, – começo a ajeitar os cabelos e ele vem a minha direção com os braços estendidos para me levantar. Já de pé, com os braços dele enrolados na minha cintura – quase isso, eu acho. 

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