Essa mulher

Ela se cansou de ser a moça bem cuidada, bonitinha, educada, com sorriso, bem prendada, sensível e compreensiva, paciente e boa amante. Chega! Ela cansou de ouvir as lamúrias alheias, de se manter equilibrada, de manter a roupa bem passada. E o cansaço que a cansou acabou virando o seu dia, sua cabeça e sua roupa. Tudo se acabou naquele dia…o principezinho que a amava e maltratava foi deixado de lado de tão sem graça, aquelas suas roupas comportadas (com joelhinho escondido!) foram deixadas de lado. O dia virou noite e ela limpou o restante das lágrimas que borraram a pouca maquiagem que usava…mas, agora, o espelho mostrava outra, uma outra de batom vermelho, de cabelos soltos, um decote farto, um salto alto e (o que é isso?) um incrível sorriso que há muito não existia naquela moldura de rosto. Com seu perfume mais cheiroso, seu olhar apetitoso desceu os quatro andares no elevador e foi pela rua, tropeçando pelos bares, para distribuir o calor que lhe crescia (e subia pelas pernas, envolvendo sua cintura, aquecendo os seus seios, apertando sua nuca…).
Viu então aquele rapaz no canto, analisando suas presas, e ela com muita pressa se jogou no seu abraço…logo o abraço foi crescendo…e como você imagina, o abraço foi o caminho pra cama. E na cama dele (essa fronteira tão estreita) ela foi. Foi feliz. Uma felicidade simples, intensa e completa. Profunda e orgânica.
Ela voltou a casa, descalçou os saltos, largou seu decote no chão, deitou no travesseiro, olhou para o outro lado vazio na cama e…percebeu…o quanto sempre adorou dormir sozinha.

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