Ela [sempre] vem

A campainha soa. É ela que vem novamente, como tantas outras vezes. Veio a mim, em minha porta, nela bate, me chama. Quando abro a porta não me espanto de vê-la, linda. Como poderia ela ser assim tão sorridente? Adentra a casa sem que eu convide e é como se ela conseguisse preencher todo o espaço, todo o vazio, tudo a sua volta.
– Olá, velha amiga!
A palavra ‘amiga’ me sai cortando, mutilando, abrindo como um punhal tudo nele, de dentro para fora, até atingir o ar. Ela se volta para mim me encarando com um sorriso de palhaço de gesso.
– Confesso que preferia dizer “a quanto tempo” ou “que saudades”, mas você tem visitado essa casa com frequência.  – Você vem visitando a mim, pensei.
Ela pega um copo e o enche de uísque, exatas duas doses sem gelo e põe em minha mão com suavidade. Sorriu para ela e silenciosamente levanto o copo em brinde.
– Por que estamos bebendo? Ao que devemos brindar?
Ela não me respondeu e até achei melhor assim. Eu sabia pelo que bebia. Eu sabia a quem brindar. Levei o copo a boca e engoli de guti-guti até onde pude aguentar. Meu estômago sentia o volume de meio copo de uísque sem gelo. O leve amargor reluzente imprimiu em mim uma careta. Não pude ver, mas sabia que minha cara repuxava até um sorriso sinistro, como se eu estivesse no Overlook, saudando fantasma à busca de um iluminado. Voltei o olhar para a convidada que me observava, certamente lendo meus pensamentos. Ela sentou-se no sofá e deu dois tapinhas no assento pedindo para que eu tomasse o lugar ao seu lado. Obedeci, sentei, larguei o copo na mesa de centro.
– Pobre Cezar! Você não está meio velho para eu vir aqui pelo mesmo motivo? Pobre Cezar, poeta tolo e inconsequente. Dentro de ti habita muito coração e pouco cérebro. Vou lhe instalar um sistema de segurança, um alarme que dispare e ressoe ao sinal de qualquer amor possível. – Gargalhou.
Ela ria de mim com uma graça malévola e isso sempre me encantava. Já passei por isso tantas vezes, já devia me acostumar. Conforme a ilustre companheira ficava e os copos se esvaziavam em mim, eu pensava: por quantas vezes, talvez, eu me encontrei com ela? Perdi a conta de vezes que chorei em seu colo. Perdi a conta de vezes que rimos juntos, da minha desgraça, claro.
– Fazia tempo que não a via. O que há de novo? Alguma nova glória? Um triunfo além do meu? Como é essa nova geração? Vocês se relacionam, digamos, bem?
– Well, well, well, meu trabalho se tornou mais fácil, confesso. Estou à caminho de um projeto de dominação mundial do qual eu nem mesmo fiz planos. Hoje eles me chamam, me procuram, me querem, não me afastam. Por isso já não trabalho mais sozinha. Tive de montar uma comissão, tenho muitos que me acompanham. Daqui a pouco devem estar por aqui, se não se importar.
– Que isso, esteja a vontade! Mas, por que está aqui? Desculpe, mas nem te chamei.
Ela gargalhou fechando os olhos e erguendo o rosto para o céu.
– Não me chamou? – Ela ergueu-se do sofá com rapidez e uma ponta de ironia transparecia em sua voz. – Pense bem, não me chamou? Que mentira! Eu só cheguei porque VOCÊ me chamou, só entrei porque VOCÊ abriu a porta, só estou aqui porque VOCÊ me quer. – Ela arqueou a sobrancelha esquerda e deu um meio sorriso pegando o copo de uísque e sentindo o cheiro da bebida – Eu sei, você sabe, Aurora sabia.
Ele ao ouvir aquele nome “AURORA” entrou em um transe profundo. Com os olhos fixos na mesa, sentado no sofá, com os braços apoiados nos joelhos.
– Que pena. Que pena. Aurora – Murmurava enquanto sua mente o transportava para um breve flashback cinematográfico. Aurora era linda, uma das poucas mulheres que conhecera e, acredite, ele conheceu muitas, que não precisaria de maquiagem ou qualquer adereço ela em si já se bastava. Conheceram-se na casa de um amigo e, ao vê-la, sabia que deveria estar com aquela mulher por toda a vida. O envolvimento dos dois se deu como tantos outros de tantas outras histórias, de tantos outros amores: desejo, conhecimento, ternura, alegria, paixão, envolvimento e, por fim, amor pleno e sublime. Era assim um casal como o tal “Eduardo e Mônica” e, no começo, como todo começo, correu tudo muito bem. Eram companheiros em todas as situações, se orquestravam harmonicamente na cama, faziam planos para a delícia da futura vida perfeita, e entre sonhos, cama e café decidiram enfim morar juntos. Antes não o tivessem feito, pois as implicâncias reais, as manias imutáveis, a falta de espaço sozinho(a), as expectativas pouco correspondidas, o outro incomoda e não à amor que perdure a socos e pontapés. E com o tempo, ah maldito conselheiro, o incômodo era reforçado pelas brigas de Cezar, seu vício pela bebida, seu vício pela vida, pela boemia, seu vício pelo mundo. Ele, eu, nós, nunca achamos verdadeiramente que Aurora poderia pensar em ir embora até porque, apesar de tudo, ela o amava, ela me amava e ele a amava. Depois das discordâncias, sempre a compensava, depois da ressaca curada saia com ela, lhe dava presentes, carinhos, novas expectativas e amor. E assim cultivava o amor esperava ele secar até as últimas e vinha com um balde de água gelada matar-lhe a sede para mais uma temporada de sol e esquecimento. Até o dia que ele chegou em casa, meio bêbado é verdade, e não reparou o silêncio, não reparou a carta na mesa, não reparou a cama vazia. Acordou sem saber onde estava Aurora e desde então não sabe para onde ela se foi. Que pena, Aurora. Acordou de sobressalto do flashback ao ouvir a campainha tocar, deveriam ser os demais companheiros. Abriu a porta e pode se admirar com as cinco figuras presentes naquela cena. Da esquerda para direita, uma mulher musculosa com o cabelo um pouco emaranhado carregando três mochilas nas coisas e quatro malas duas a cada mão; um casal de gêmeos, um menino e uma menina, de no máximo 10 anos, vestidos com roupas de criança dos anos 20, a menina de cabelos louros amarrados com fita e o rapazinho com uma bonezinho. Estavam de mãos dadas e dirigiam seu olhar para o chão; ao lado deles uma mulher divina, majestosa, sedutora, lábios vermelhos, cabelo cheio, encaracolados, negros, um vestido que é melhor nem comentar e, por fim, um rapaz de uns 30 anos, alinhado vestindo terno, ao vê-lo era impossível não notá-lo, as fantasias diziam que por baixo daquela roupa havia um corpo forte, musculoso, convidativo, ele era o charme personificado. Entraram todos passando por Cezar e foram de encontro com a convidada intrusa. 
– Boa noite a todos! Relatórios?
– Feito! – disse a moça das malas enquanto jogava-as ao lado do sofá.
– Estamos trabalhando. – Disseram os gêmeos em coro.
– Terminado. – Respondeu o rapaz charmoso.
A moça bonita só olhou e sorriu para a perguntante.
– Cezar velho, apresento a minha equipe de trabalho. São os melhores trabalhadores que já houve nesse mundo e em qualquer outro. Ainda estamos fazendo seleção o mundo novo, a nova geração, a nova condição de vida nos impulsiona para longe, para um lugar que nunca poderíamos ter sonhado. Logo, logo a empresa será a maior da história!!! Será maravilhoso. A das malas é a Culpa, você não sabe, mas ela tem dormido na sua sala. Os pequeninos são a Angústia e o Desespero é incrível como sentimentos tão velhos podem se moldar de forma pequenina. Eles não falam muito, mas executam muito bem o trabalho. Vivem rondando as pessoas, soprando-lhes “ideias”. – Gargalhou enquanto dizia a última palavra – Reparei seu olhar para a Depressão, mas tome cuidado ela é sedutoramente perigosa, pode arruinar sua vida em pouco tempo. E esse rapaz, – e ela se aproximou dele, andando como se estivesse encanta, até agarrar-lhe a cintura – esse lindo rapaz é uma obra prima, ele é o finalizador, ele é o executor, é o último sorriso que eles vêem. Esse é o Suicídio, não converse muito com ele, é um ótimo manipulador e extremamente convincente. 
Cezar ficou aterrorizado com aquela percepção, fazia sentido tê-los todos em sua casa. Desespero e Angústia, a Culpa e seus pesos, a Depressão sorrindo-lhe, Suicídio acenando e, a primeira de todas em sua vida, a bela Tristeza. Cezar se colocou no centro, sentado no sofá, com o copo de uísque em mãos, enquanto os demais se arrodeavam dele, sentados, conversando, rindo, contando misérias, falando de mortes, mostrando martírios. Cezar não se apercebeu de nada disso, ficou paralisado longinquamente, bebendo uísque, pensando em Aurora – Onde está Aurora? pensava, pensava, pensava.
O dia amanheceu, levantou de solavanco o que fez com que sua cabeça desse uma pontada de dor lancinante.
– Caralho! – A palavra soou mais como um urro.
Ficou imóvel até se sentir melhor, mas a ressaca tinha arrasado seu corpo. Foi recordando a noite anterior, na sala só havia silêncio, alguma garrafas vazias de uísque, um cinzeiro abarrotado de pontas de cigarro. Onde estariam aquelas figuras que lhe acompanharam pela noite? Onde estariam? Levantou arrastando-se para o banho, pensando no ocorrido da noite anterior. O estômago roncava, reclamava das horas de abandono. Saiu do banho empurrando os chinelo. O silêncio do lugar o consumia, pensava em Aurora – onde está Aurora? – lágrimas escorriam, ele buscou a garrafa de uísque fechada, abriu e despejou o conteúdo no copo, levou a boca, engoliu. Começou um choro copioso, uma torneira aberta.
– Que grande merda! – Gritava a plenos pulmões – eu não quero o silêncio! Não quero morrer sozinho! Não quero o meu eu!! Aurora, Aurora, Aurora…Cadê a minha Aurora? Que merda! Que vida de merda! Que… – A campainha interrompeu o acesso de fúria. Foi a porta pronto a atirar o copo em que fosse. Abriu a porta.
– Graças a Deus você veio! – Abraçou a figura – Não quero ficar sozinho, não aguento esse silêncio, não quero pensar nela, não quero pensar nas coisas. – Deixava o choro escorrer pelo ombro da mulher que sorria. 
– Calma, calma! Eu vou cuidar de você.
– Você é minha única amiga. – choramingava.
– Tristeza é sempre uma boa amiga.

Com um sorriso estampado no rosto, um sorriso de alegria, de vitória, de doce ironia, a Tristeza entrou a casa. E assim o fez sempre o dono destrava o segredo da chave, sempre que a campainha era atendida, sempre que ele a queria e com isso foi tomando aquela casa, fazendo dela sua nova moradia.

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