Bela ou artista?

Era uma dessas noites em que nos encontrávamos para discutir arte e cair na bebedeira. Mais pela bebedeira do que pela arte, creio eu. Estávamos em uma mesa grande, hoje muitos compareceram ao bar do Friedrich. Ele era um homem bastante sisudo com um bigode que lhe escondia o lábio superior, mas, no fundo, tinha um coração imenso [e sempre perdoava nosso fiado]. Por vezes sentava a mesa conosco, mas nunca sabíamos se ele era a favor ou contra um argumento, sempre mantinha a mesma cara séria. 
Cheguei e já era um tanto tarde, a mesa já estava com muita gente acompanhada de copos, cigarros e charutos. Ao me aproximar todos me saudaram com um brinde barulhento. Já estão bêbados, pensei e ri. Sentei-me ao lado dos companheiros e começamos a discutir. Foram quadros políticos, economia, o que é a arte, novos artistas, bundas alheias, assuntos que os bêbados adoram curtir no álcool.  
Lá pela tantas me perguntaram:
– Se puderes tu escolher entre ser só bela e ser artista, com qual ficarias?
Não foi uma decisão difícil, logo já havia uma resposta. 
– Bela, sem dúvida!
As sobrancelhas se arqueavam e as bocas, nas quais os copos cheios de bebida pousavam, esboçavam um sorriso sarcástico. Eu mesma ria.
– Oras, mas por quê? Frida me perguntou, enquanto cruzava as pernas e trazia o cigarro a boca.
– Muito simples. Ser bela não dói, não te afunda. Não te obriga a sucumbir todo santo dia nas mazelas suas e do mundo. Ser somente bela, não te traz a consciência da imensidão e pequenez do homem. Ser somente bela não te aprisiona a caneta e ao papel, ou ao pincel e o cavalete, ou ao palco, ou ao corpo. Não te exige inspiração e não te desespera quando a maldita some. Não te faz exigente ao escrever três páginas inteiras e arremessá-las ao vento por não serem boas o suficiente. Ser bela agrada a todos, ser bela não precisa de posição política. Ser bela não te oprime o peito. Ao ser bela não há preocupação de conteúdo [a beleza se basta]. As belas recebem visitas, tem tempo, se olham no espelho, não frequentam bares, não se embriagam, não desanimam, não se queixa, não tem medo de morrer sozinhas. 
A mesa me olha com olhos de concordância muda.
– Acho até que no mundo deveriam haver mais beldades e menos artistas. Os artistas tocam, fazem os outros pensarem, mostram as dores, as lágrimas, as entranhas, trazem realidades tapadas, fazem as lágrimas rolarem. 
Silêncio a mesa. Ergui o copo e prossegui:
– Somos imundos, sujos, inquietos. Somos agonias a amostra, banquete de desejos não cumpridos, saudades martirizantes, sexos intermináveis, vontades incompletas. Somos o melhor e o pior do mundo.
Todos erguiam também seus copos e brindavam o nada e o tudo de ser artista. E por fim disse:
– Quer dizer, somos não! Vocês é quem são! – todos pararam me olhando. Ergui a perna desnudada pelo vestido e coloquei-a na mesa – Porque eu sempre fui só bela! Riram todos pedindo ao Senhor Friedrich mais uma rodada de tequila.

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