Armazém [2]

Filomena dormiu ao lado de Joana para acudir em caso de precisão. Ficou ali na cama, dormiu ao lado da amiga e do menino, sem arredar o pé. Toda a hora em que a criança chorava de fome, todos acordavam. Josué colocava o ouvido na porta de madeira para saber se estava tudo bem, Filomena pegava o garoto a lhe fazer caretas e entregava a mãe orgulhosa que lhe saciava. Foi assim a noite toda. No dia seguinte Seu Josué levantou junto com os primeiros raios da manhã, não podia se aguentar de alegria, queria entrar no quarto, segurar o filho, beijar a esposa, abraçar a cumadi, mas sabia que as duas estavam cansadas e não perturbou o sono. Estava com tanta agonia de ver a cara do menino, de sentir seu cheiro, de ter seu peso nos braços que preferiu dar uma volta, assim, quando voltasse, todos já estariam de pé. Pegou o chapéu e saiu a caminhar. Pela hora não havia ninguém na rua, achou estranho. Olhou um lado, outro, ninguém. Estranho. Mas continuou o caminho mesmo assim. Anuviado de pensamentos de ser pai, tomou o rumo da cachoeira das sete quedas. Foi caminhando no mato e sentido o cheiro bom do verde, o sol estava iluminado, um calor agradável batia em suas costas. Quando se apercebeu estava ali olhando as setes quedas, aquela belezura que o próprio Deus pintou ali para o deleite dos olhos de todos. Ajoelhou-se a beira d’água, fechou os olhos, atou as mãos, respirou fundo, rezou mentalmente:
– Pai, o senhor me escuta? Quero agradecer Pai, pelo menino ter nascido bem, por deixar a Joana viva, por não ter complicação. Oh Pai, fico muito agradecido pelo Senhor me fazer pai também. Tô tão feliz! Tô tão feliz! Sempre quis poder ter um pedaço de mim, uma gente miúda com a cara minha. Se bem que é melhor o menino ter nascido com a cara de Joana, ela sim é uma boniteza! Pai, cê fez ele com a cara da Joana? Tomara que sim. – Deu uma risadinha abafada – Desculpa Pai, mas o Senhor já sabe como eu sou não é? Prefiro fazer graça. Abriu os olhos e viu ali, na cachoeira, sentada na borda, pés dentro d’água, uma moça com cabelos muito longos cacheados, pele bem branca, com um longo vestido reluzente. Parecia ouro puro. Josué, sem ação, ficou ali admirando a moça que abriu um sorriso. De onde menos se esperava, emergiu da água outra moça. Pele morena, os lábios pintados de carmim, colar e brincos. Parecia que estava nua, mas, de dentro da água, não se podia ver. Tinha traços mais indígenas, e olhou fixamente para o novo pai. Sorriu também. Josué se assustou, por dentro, com a aparição da moça. Fez que ia levantar, quando ouviu um assovio. Vinha do lado de lá da cachoeira, de dentro da mata. O que será que é? Será que é bicho ou gente? Pensou Josué. Era gente, um índio forte acompanhado de uma senhora negra. Ele vestido de pena e cocar, ela vestida de manto lilás. O caboclo estava sério e vinha com um arco e flecha cruzado no corpo. Olhou Josué e fechou mais o rosto, o saudou com um sim rápido. A senhorinha, sorria. Trazia as mãos juntas ao peito, em posição de reza. Josué via que ela mexia os lábios, mas não ouvi palavra se quer. Foi achando tudo muito estranho. De onde é que vinha aquela gente? Será que moravam naquela mata? Será que eram os elos perdidos do mundo? E por que nunca ninguém achou? Será que são de paz? Olhava aquele quadro bonito, todos quase imóveis. As mulheres sorrindo, o homem sério, mas respeitoso. Um arbusto balança. Quem será agora? Um velho negro se ajunta a velha. Homem simples, roupa de couro cru. Parecia resmungar, como se tivesse sido deixado para trás e, atrás dos resmungos do velho, vieram sorrisos. Riam dele. Eram dois meninos, com a cara igualzinha. Corriam rindo do velho, correndo em volta dele que esbravejava ainda mais. Sumiram na mata. Arre, eu devo de estar sonhando achando que acordei. Um barulho de trovão atrapalhou o pensamento. Olhou para cima da cachoeira. Um homem imenso de grande, forte, largo, por estar contra a luz Josué não pode ver seu rosto, mas sabia que ele o olhava, duro, sério, vivo. Carregava um escudo, eu acho, uma espada talvez. O que esse homem leva a mão? Quem é? Estava com o peito nu, usava uma espécie de saia que balançava com o vento. De repente, o vento ficou forte, soprando, soprando, soprando, era impossível manter os olhos abertos. As árvores se remexiam atrozes, dançavam violentamente, a terra do chão subiu. Na ponta da cachoeira, Josué ainda conseguiu ver uma silhueta feminina. Os cabelos mexendo violentamente com o vento, ela erguia os braços, começou a trovejar, raios desciam do céu. Josué, com medo, pensava como poderia em meio aquele sol ardente estar trovejando raio? Se abaixou pondo a cabeça no chão, protegendo a cabeça envolvendo as mãos na nuca, encolheu o corpo, apertava os olhos fechados. O vento parou. Josué se levantou, olhou e não havia mais ninguém. Nem homem, nem moça, nem velho. Olhou para trás. Mas que diabos aconteceu aqui? Pensou. Quando foi levantar reparou que a sua frente, no chão, tinha uma pedra circular, com uns 2 cm de raio, era marrom, mas, quando a luz batia, era rajada com amarelo. Entendeu. Era um presente para o menino.
– Agora quem é que é que deu esse presente? 
Olhou novamente, não havia ninguém. Pegou a pedra do chão e, antes de sair, gritou sozinho:
– Muito obrigado, viu? Vai andar sempre com ele. 
Virou as costas e caçou o rumo de casa ainda meio confuso com toda aquela gente da cachoeira.

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