Armazém [1]

O homem chegou ao armazém de seu Belarmindo. Boa tarde, como vai? A cidade era pequena, esquecida no tempo e na história, lugar de gente simples e de muita memória. Gente acostumada com o roçado longo, o dia claro e o descanso pouco. Gente acostumada mesmo com o trabalho, sol a sol. Sem prestígio e sem remédio. Povo de alegria parca e coragem muita. Boa tarde doutor Marcos! O que quer para hoje? O de sempre, o senhor pode me trazer uma garrafa de cachaça e o prato do dia. Encostado na bancada virou para olhar onde sentar. O lugar era pequeno uma dúzia de mesas com cadeiras. Estava tudo ocupado. Somente uma cadeira disponível e ela estava a mesa de um velho negro. Receou ainda em pedir para sentar-se lá esperaria desocupar outro lugar. Não queria almoçar junto de estranho, ainda mais um estranho negro. Seu Belarmindo trouxe a comida, a garrafa e copo. Nada das cadeiras desocuparem…o estômago roncou e ele foi vencido. O senhor dá licença d’eu sentar? O velho homem, com o rosto marcado pelo sol e o trabalho, levantou os olhos do prato e viu o jovem, branco e arrumado. Parecia desses “doutor” metidos a besta. Pensou consigo: não quero ter de almoçar com esse tipo. Olhou para os lados e não tinha nenhum outro lugar vazio. Olhou novamente o jovem branco que esperava, com um sorriso pela metade. Sente-se. O jovem sentou. Hoje o almoço era um baião de dois, especialidade de Dona Carminha, a esposa de seu Belarmindo. Quando era dia de baião o armazém ficava cheio, para a alegria do dono. Mas, voltemos aos dois na mesa, estavam lá lado a lado pensando cada qual na sua vida querendo estar longe um do outro. Preconceitos sem explicação embutidos na pele pelo tempo, pela história, pela desmedida humana. Eu sou mais você é menos. Eu sou mais você é menos. Eu sou mais você é?….menos. Mentiras repetidas por tanto tempo para ter cara de verdade. Estavam tensos, os dois. Pensando em histórias da carochinha de como gente assim [?] não presta, não tem valor, não tem respeito. Os dois pensavam a mesma coisa, mas em sentidos contrários. E, não sei bem te dizer o porquê, eles começaram a conversar.
– O senhor quer um copo de cachaça? Cai bem para acompanhar o baião de Dona Carminha.
Talvez o sorriso do rapaz tenha sido um convite para o velho. Ou quem sabe, ele só precisasse de um pouco de ardência para desenrolar a língua.
– Já que o senhor oferece, vou aceitar sim.
– Seu Belarmindo, me traz mais um copo, por favor.
O rapaz era deveras polido. Havia estudado anos fora dali, conhecendo da agitação dos estudos e das noites da capital. Aproveitou o tempo com todas as oportunidades. Conheceu doutores e mulheres, fartou a mente e o corpo. Fez o curso de doutor em letras, mas, quando voltou para cidadezinha, o máximo que conseguiu foi o emprego de tabelião no cartório. Apesar de parecer pouco para aquela gente ele era uma autoridade de respeito. Virou orgulho dos pais e da família. Vejam só que maravilha! Meu filho TABELIÃO. Vinha de família simples: o pai sapateiro, a mãe cozinheira. Não se tinha muito na casa, mas nunca lhe faltou comida. Quando criança caminhava na rua com suas artes e façanhas, ajudava nas casas para conseguir um trocado, ou uma comida mais farta. A mãe se orgulhava: meu menino vai ser muito trabalhador quando crescer.
Dona Joana, mãe do rapaz, demorou muito tempo até que conseguisse firmar a barriga. Foram 4 anos de casada sem nada de filhos. Já estava desgostosa e sem alegria de tentar. O povo da cidade dizia que era mau agouro, olho grande. Tinha quem dissesse que era macumba feita para que ela nunca fosse feliz, também andando com preto dá nisso. Outros ainda, diziam que ela era doente incapaz de fazer o que toda mulher deveria: dar um filho ao seu esposo. Essa cobrança do mundo sempre lhe causou sofrimento, ainda mais para ela, moça nova e bonita vinda de outra cidade. A ela restou apenas abaixar os olhos e se apegar com Deus. Pois, naquele tempo, a única que lhe era amiga era Dona Filomena pessoa de muito amor que cuidava das casas grandes que ficavam nas fazendas. Naquele tempo ela já se tornara governanta da casa dos Pereira, mas antes já havia limpado muito chão e muita panela.
Um dia, nas suas rezas pedindo para que um filho lhe firmasse na barriga ouviu palmas no portão.
– Joana! Oh, Joana! – Era Dona Filomena.
Joana estranhou a hora, ainda era cedo para que ela aparecesse. Tratou de ir abrir a porta, devia ser coisa importante. Abriu a casa, entraram as duas. Sentaram-se na poltrona da sala. Filomena trazia um embrulho em papel de jornal e Joana estava curiosa para saber o que era aquilo. Percebendo o olho comprido da amiga foi logo falando:
– Escute, acho que encontrei um jeito de você firmar o menino no ventre. Descobri o que ocê táva fazendo errado – Os olhos de Joana se arregalaram, será possível que ali, no embrulho, havia um milagre? – O problema é que ocê tava pedindo pro santo errado. Nosso Senhor Jesus Cristo pode tudo, mas ele não entende dessas coisas de mulher não. Ele era santo demais e nem nunca sabe como é que é ter filho. Ouvi a filha do Seu Pereira dizendo que a filha do Seu Mathias só segurou menino na barriga depois que fez novena para a Nossa Senhora. Mas não é só Nossa Senhora não, é para Nossa Senhora do Desterro – Ao falar na santa Filomena abriu o embrulho, ela carregava a imagem da santa – Agora eu tenho certeza Joana, vai dar certo. Eu mesma fui lá na igreja e pedi a imagem para o Padre, agora é só ocê rezar direito para encher a barriga.
Filomena sorria para o rosto iluminado de Joana. Não custava tentar, mal não iria lhe fazer. Encheu o coração de esperança, agradeceu a amiga com um forte abraço. A negra apressada logo se despediu, pois ainda precisa voltar para a lida.
Sozinha em casa Joana pôde enfim olhar a imagem com mais cuidado. Era a Nossa Senhora que vinha carregando o menino Jesus nos braços, sentada em um burro e olhada por José. Colocou a santa no altar, acendeu uma vela, dobrou seus joelhos no chão, entrelaçou as mãos na altura do coração, abaixou a cabeça e pôs-se a rezar.
– Oh minha Nossa Senhora, desculpa se negligenciei a sua benção realmente não havia lembrado que a senhora é a mãe de todos nós, nossa intercessora junto ao pai. Me perdoe se na sede de alcançar a minha graça esqueci que a Senhora, melhor do que qualquer outro, saberia entender minha agonia e angústia. Mãe santíssima, perdoa essa filha que por querer tanto alcançar o milagre não soube pedir a quem é de direito. Perdoa, mãe. Se a Senhora ainda enxergar nessa filha o merecimento de receber o ventre cheio com um menino, para a glória e benção dessa família, permita a Vossa Graça sobre mim.
Filomena ao sair ficou aflita, um medo lhe acometeu. Será que Joana iria perceber o fundo? Antes de entregar a imagem a amiga, furou o fundo colocou um pequeno espelho, uma medalhinha de ouro, algumas pétalas e fechou com argila. Foi até uma pequena dispensa, em sua própria casa, ajoelhou-se no centro do quarto, colocou a imagem a sua frente, envergou o corpo até que sua testa tocasse o chão. Com os braços abertos e as mãos espalmadas para cima começou um cântico. Era uma língua estranha aos brasileiros, era o Ioruba de sua terra, de sua velha África. Cadenciado e profundo era o ritmo entoada por ela. Era uma oração em canto, era rezar em verso, era orar rimando. Pedia a sua Orixá, mãe nas cachoeiras, que concedesse a graça a amiga. Lhe cantou o canto, lhe rezou a reza, lhe pediu com pranto. Queria sim que cessasse a dor daquela amiga que lhe acolheu com tanto amor e sinceridade quando toda a cidade lhe virava a cara. Preta, achando que é gente. Andando na rua dos brancos e querendo ser. E ela pediu, pediu a mãe na África que também reinasse no Brasil que ela agora estava. Que a sua força grandiosa atravessasse o mar, o oceano, e fosse derramada no ventre de Joana. O tempo do relógio não soube contar a profundidade do pedido de Filomena, mas quando saiu do quartinho ela sabia que já era metade da manhã.
Depois daquilo contou 3 meses, Joana estava com vida na barriga. Não se sabe qual foi a reza certa [mas tem reza errada?], mas as duas amigas sorriam satisfeitas. Todo dia, cada qual a sua santa, pediam para que aquela vida vingasse e que a proteção maior cobrisse o dia do parto. E então, a cada mês que virava e nada de ruim acontecia, Joana e Filomena ajoelhavam transbordando alegria e promessas. Virando para o nono mês a vida quis ver cara de gente, chutou, apertou, empurrou. Era hora de chamar o doutor! Seu Josué, pai do menino, foi logo correndo pela cidade, a casa do médico não era longe, na verdade nada lá era longe, cidade pequena é assim só um apanhado de gente. Bateu a porta e não teve resposta, a vizinha disse que o Doutor Geraldo estava atendendo lá na fazenda da Boa Vista.
– Danou-se – pensou o pobre homem, quem poderia ajudar em momento de tamanha precisão? Lembrou logo do nome, virou as costas para vizinha e deu no pé. Correu até a casa de Filomena.
– Cumadi acode, cumadi acode!!
Ela abriu a porta de madeira.
– Mas que diabos Josué, o que foi homem?
– Tá na hora de Joana dar a luz, cumadi, e o Doutor Geraldo não tá na cidade. Sei que você já fez nascer muito menino nesse mundo, preciso de sua ajuda. Vamos lá pra casa, ligeiro!
A negra logo mudou as vestes e se juntou a corrida de Josué. Chegaram a casa e Joana já estava suando muito, com contrações contínuas e rápidas. Não levaria muito tempo, pensou Filomena. Pediu os utensílios a Josué e mandou que saísse do quarto. A amiga, agora em função de parteira, pedia mentalmente a sua Orixá: guia minha mão, minha mãe! Realmente não tardou muito e Josué, aflito na sala, ouviu o choro de vida. A reclamação de quem chega ao mundo sem saber direito como é o caminho. Ouviu Filomena gritando: é um menino! Um menino! Sentou-se na poltrona da sala, recostando a cabeça pesada de tanto esperar. Escorreu uma lágrima do olho direito. É um menino.

Ora, mas tenha calma, que eu só comecei a contar a história.

Deixe uma resposta